O que é serialization em Kotlin?

Resposta rápida: serialization (serialização) transforma um objeto Kotlin em dados que podem ser enviados por uma API ou salvos, normalmente JSON. A desserialização faz o inverso: lê os dados e cria novamente um objeto tipado. A biblioteca oficial kotlinx.serialization usa @Serializable e um plugin do compilador para gerar serializers sem depender de reflexão em runtime. Ela funciona em projetos Android, backend com Ktor e Kotlin Multiplatform.

@Serializable
data class Usuario(val nome: String, val idade: Int)

val texto = Json.encodeToString(Usuario("Ana", 30))
val usuario = Json.decodeFromString<Usuario>(texto)
Se você precisa de…Use
JSON em Android, backend ou KMPkotlinx-serialization-json
Modelos com nomes de campos diferentes da API@SerialName
Ignorar novos campos enviados por uma APIJson { ignoreUnknownKeys = true }
Variantes fechadas de um mesmo modelosealed class + @Serializable
Um tipo externo ou formato especialKSerializer<T> customizado
Formato binário compactoProtoBuf ou CBOR

Configuração do projeto

O plugin de serialização deve usar a mesma versão do Kotlin configurada no projeto. A biblioteca JSON tem versionamento próprio; substitua os marcadores abaixo pelas versões compatíveis escolhidas no seu catálogo ou arquivo de build:

// build.gradle.kts
plugins {
    kotlin("jvm") version "<versao-do-kotlin>"
    kotlin("plugin.serialization") version "<mesma-versao-do-kotlin>"
}

dependencies {
    implementation("org.jetbrains.kotlinx:kotlinx-serialization-json:<versao-da-biblioteca>")
}

Em Android, mantenha o plugin Android já usado pelo módulo e acrescente kotlin("plugin.serialization"). Em projetos KMP, declare a dependência no commonMain quando os modelos forem compartilhados. Confirme as versões atuais na documentação oficial antes de atualizar um projeto existente.

Uso básico com JSON

import kotlinx.serialization.*
import kotlinx.serialization.json.*

@Serializable
data class Usuario(
    val nome: String,
    val idade: Int,
    val email: String
)

fun main() {
    val usuario = Usuario("Ana", 30, "ana@email.com")

    // Serializar: objeto -> JSON string
    val json = Json.encodeToString(usuario)
    println(json)
    // {"nome":"Ana","idade":30,"email":"ana@email.com"}

    // Desserializar: JSON string -> objeto
    val objeto = Json.decodeFromString<Usuario>(json)
    println(objeto)
    // Usuario(nome=Ana, idade=30, email=ana@email.com)
}

A anotação @Serializable instrui o plugin do compilador a gerar um serializer para a classe. Sem ela — ou sem um serializer informado explicitamente — a classe não pode ser serializada. Esse padrão combina especialmente bem com data classes, mas também funciona com classes comuns, objetos, enums e sealed classes.

Customizando nomes de campos

@Serializable
data class Produto(
    @SerialName("nome_produto")
    val nome: String,

    @SerialName("preco_unitario")
    val preco: Double,

    @SerialName("em_estoque")
    val emEstoque: Boolean
)

fun main() {
    val produto = Produto("Teclado", 299.90, true)
    val json = Json.encodeToString(produto)
    println(json)
    // {"nome_produto":"Teclado","preco_unitario":299.9,"em_estoque":true}
}

Valores opcionais e padrão

@Serializable
data class Configuração(
    val tema: String = "claro",
    val fontSize: Int = 14,
    val idioma: String = "pt-BR"
)

fun main() {
    val json = Json { encodeDefaults = false }

    // Serializar: campos com valor padrao podem ser omitidos
    val config = Configuração()
    println(json.encodeToString(config))
    // {} (campos com valor padrao omitidos)

    // Desserializar: campos ausentes usam valor padrao
    val configParcial = json.decodeFromString<Configuração>("""{"tema":"escuro"}""")
    println(configParcial)
    // Configuração(tema=escuro, fontSize=14, idioma=pt-BR)
}

Configurando o Json

O objeto Json pode ser customizado com várias opções:

val jsonConfig = Json {
    prettyPrint = true              // JSON formatado com indentacao
    isLenient = true                // Aceita JSON nao estritamente valido
    ignoreUnknownKeys = true        // Ignora campos desconhecidos
    encodeDefaults = true           // Inclui campos com valor padrao
    coerceInputValues = true        // Coerce valores incorretos para padrao
    explicitNulls = false           // Omite campos null
    namingStrategy = JsonNamingStrategy.SnakeCase // Converte camelCase para snake_case
}

@Serializable
data class Resposta(
    val statusCode: Int,
    val mensagem: String,
    val dados: String? = null
)

fun main() {
    val json = """
        {
            "status_code": 200,
            "mensagem": "Sucesso",
            "campo_extra": "ignorado"
        }
    """.trimIndent()

    val resposta = jsonConfig.decodeFromString<Resposta>(json)
    println(resposta)
}

Serializando coleções e tipos aninhados

@Serializable
data class Endereco(
    val rua: String,
    val cidade: String,
    val estado: String
)

@Serializable
data class Pedido(
    val id: Long,
    val itens: List<String>,
    val endereco: Endereco,
    val tags: Set<String> = emptySet(),
    val metadados: Map<String, String> = emptyMap()
)

fun main() {
    val pedido = Pedido(
        id = 1001,
        itens = listOf("Teclado", "Mouse"),
        endereco = Endereco("Rua A", "São Paulo", "SP"),
        tags = setOf("eletronicos", "informatica"),
        metadados = mapOf("prioridade" to "alta")
    )

    val json = Json { prettyPrint = true }
    println(json.encodeToString(pedido))
}

Polimorfismo com sealed classes

@Serializable
sealed class Notificacao {
    @Serializable
    @SerialName("email")
    data class Email(val destinatario: String, val assunto: String) : Notificacao()

    @Serializable
    @SerialName("push")
    data class Push(val token: String, val titulo: String) : Notificacao()

    @Serializable
    @SerialName("sms")
    data class Sms(val telefone: String, val mensagem: String) : Notificacao()
}

fun main() {
    val notificacoes: List<Notificacao> = listOf(
        Notificacao.Email("ana@email.com", "Bem-vinda"),
        Notificacao.Push("token123", "Nova mensagem"),
        Notificacao.Sms("+5511999999999", "Código: 1234")
    )

    val json = Json { prettyPrint = true }
    val jsonStr = json.encodeToString(notificacoes)
    println(jsonStr)

    // Desserializa com o tipo correto baseado no discriminador
    val desserializado = json.decodeFromString<List<Notificacao>>(jsonStr)
    desserializado.forEach { println(it::class.simpleName) }
}

Serializer customizado

Para tipos que não são controlados por você ou que precisam de formatação especial:

import kotlinx.serialization.*
import kotlinx.serialization.descriptors.*
import kotlinx.serialization.encoding.*
import java.time.LocalDate

object LocalDateSerializer : KSerializer<LocalDate> {
    override val descriptor: SerialDescriptor =
        PrimitiveSerialDescriptor("LocalDate", PrimitiveKind.STRING)

    override fun serialize(encoder: Encoder, value: LocalDate) {
        encoder.encodeString(value.toString())
    }

    override fun deserialize(decoder: Decoder): LocalDate {
        return LocalDate.parse(decoder.decodeString())
    }
}

@Serializable
data class Evento(
    val nome: String,
    @Serializable(with = LocalDateSerializer::class)
    val data: LocalDate
)

Outros formatos além de JSON

kotlinx.serialization suporta múltiplos formatos:

// Protobuf
implementation("org.jetbrains.kotlinx:kotlinx-serialization-protobuf:1.6.2")

@Serializable
data class Mensagem(@ProtoNumber(1) val texto: String, @ProtoNumber(2) val id: Int)

val bytes = ProtoBuf.encodeToByteArray(Mensagem("Ola", 1))
val msg = ProtoBuf.decodeFromByteArray<Mensagem>(bytes)

// CBOR
implementation("org.jetbrains.kotlinx:kotlinx-serialization-cbor:1.6.2")

val cborBytes = Cbor.encodeToByteArray(usuario)

Quando usar kotlinx.serialization

  • APIs REST: serializar e desserializar JSON em chamadas HTTP com Ktor ou Retrofit.
  • Armazenamento local: salvar estado e configurações em arquivos ou no DataStore quando JSON for adequado ao caso.
  • Kotlin Multiplatform: compartilhar modelos e serializers entre targets sem limitar o domínio à JVM.
  • Apps Android com R8: evitar uma solução baseada apenas em reflexão e manter contratos Kotlin explícitos.
  • Comunicação entre serviços: usar ProtoBuf ou CBOR quando um formato binário fizer sentido para o contrato.

A escolha não é automática. A comparação direta ajuda a decidir:

kotlinx.serialization vs Gson vs Moshi vs Jackson

Critériokotlinx.serializationGsonMoshiJackson
Geração em tempo de compilaçãoSim (plugin do compilador)Não (reflexão)Opcional (codegen)Não (reflexão)
Kotlin MultiplatformSim — JVM, Android, iOS, JS, WasmNão (JVM/Android)Não (JVM/Android)Não (JVM)
Valores padrão e nullability do KotlinNativosParcial (perde defaults)ParcialParcial
Sealed classes polimórficasNativas via @SerializableNãoRequer adaptersRequer módulos extras
Custo em builds Android com R8Baixo (sem reflexão)MédioBaixo com codegenAlto
Ecossistema típicoKotlin, Ktor, KMPLegado AndroidAndroid modernoSpring/JVM

Jackson continua forte em aplicações Spring/JVM, enquanto Moshi é comum no Android e oferece geração de adapters. Prefira kotlinx.serialization quando integração com Kotlin, multiplataforma, modelos imutáveis e geração em tempo de compilação forem prioridades.

Casos de Uso no Mundo Real

  1. comunicação com APIs REST: em aplicações Android e backend com Ktor, kotlinx.serialization e usado para converter respostas JSON de APIs em data classes Kotlin e vice-versa. A integração com Ktor e nativa, dispensando configuração adicional para serialização de requisicoes e respostas.

  2. Armazenamento local estruturado: aplicações que precisam salvar estado ou configuracoes em disco usam kotlinx.serialization para converter objetos em JSON e gravar em arquivos ou DataStore. Na leitura, os dados sao desserializados de volta para objetos tipados, garantindo type safety.

  3. Kotlin Multiplatform (KMP): em projetos multiplataforma que compartilham código entre Android, iOS, web e desktop, kotlinx.serialization e a única biblioteca de serialização que funciona em todos os targets. Modelos de dados compartilhados sao anotados com @Serializable uma única vez e funcionam em todas as plataformas.

  4. comunicação entre microsservicos: backends Kotlin que se comunicam via gRPC ou mensageria (Kafka, RabbitMQ) usam formatos binarios como Protobuf ou CBOR com kotlinx.serialization para obter serialização eficiente e compacta, reduzindo latencia e consumo de banda.

Boas Praticas

  • Configure ignoreUnknownKeys = true ao consumir APIs externas: APIs de terceiros podem adicionar campos novos a qualquer momento. Sem essa configuração, campos desconhecidos causam exceção e quebram sua aplicação.
  • Use @SerialName para desacoplar nomes Kotlin de nomes JSON: mantenha nomes de propriedades idiomaticos em Kotlin (camelCase) e use @SerialName para mapear para o formato da API (snake_case ou outro), evitando dependência direta do formato externo.
  • Crie uma instancia reutilizavel de Json com suas configuracoes: em vez de criar uma nova instancia a cada serialização, defina um objeto Json configurado uma vez e reutilize-o em toda a aplicação. Isso melhora performance e garante consistencia.
  • Prefira encodeDefaults = false para payloads menores: quando campos com valor padrão não precisam ser enviados, desativar a codificacao de defaults reduz o tamanho do JSON e o trafego de rede.
  • Valide dados desserializados apos a conversao: kotlinx.serialization garante que o JSON e válido e que os tipos estao corretos, mas não válida regras de negócio. Adicione validacao explicita (como verificar se um email tem formato válido) apos a desserializacao.

Perguntas Frequentes

P: Qual a diferenca entre kotlinx.serialization e Gson/Jackson/Moshi? R: kotlinx.serialization gera código de serialização em tempo de compilação, enquanto Gson e Jackson usam reflexao em tempo de execução. Isso torna kotlinx.serialization mais rápida, type-safe e compativel com Kotlin Multiplatform. Alem disso, kotlinx.serialization entende nativamente recursos do Kotlin como valores padrão, nullability e sealed classes.

P: Posso usar kotlinx.serialization com Retrofit? R: Sim, por meio de uma Converter.Factory compatível com a versão do Retrofit usada no projeto. Verifique a documentação e a manutenção do converter antes de adotá-lo: bibliotecas comunitárias e integrações mudam de compatibilidade ao longo do tempo. Com Ktor, a integração é fornecida pelo ecossistema oficial via ContentNegotiation e ktor-serialization-kotlinx-json. Veja também o tutorial de Retrofit em Kotlin.

P: Como serializo classes que não posso anotar com @Serializable (classes de terceiros)? R: Voce pode criar um KSerializer customizado para o tipo e registra-lo no modulo de serialização usando SerializersModule. Outra opção e criar uma classe wrapper ou surrogate anotada com @Serializable que represente os mesmos dados.

P: kotlinx.serialization funciona com tipos genericos? R: Sim, mas com uma restricao: você precisa fornecer o serializer explicitamente para tipos genericos, pois o Kotlin não mantém informação de tipo generico em tempo de execução (type erasure). Use serializer<MeuTipo<Param>>() ou passe o serializer como parametro.

Erros comuns

  1. Esquecer a anotacao @Serializable: sem ela, o plugin não gera o serializer e você recebe um erro em tempo de execução.

  2. Nao aplicar o plugin do compilador: apenas adicionar a dependência não basta. O plugin kotlin("plugin.serialization") deve ser aplicado no build.gradle.kts.

  3. Ignorar campos desconhecidos sem configurar: por padrão, campos extras no JSON causam exceção. Use ignoreUnknownKeys = true quando consumir APIs externas.

  4. Confundir com Gson ou Jackson: kotlinx.serialization tem API e anotações proprias. Misturar anotações de Gson com kotlinx.serialization não funciona.

  5. Nao tratar nulls e ausentes: em JSON, um campo pode estar ausente ou ter valor null. Configure explicitNulls e coerceInputValues conforme necessário.

Próximos passos

Termos relacionados

  • JSON: formato textual amplamente usado em APIs web.
  • Data Class: modelo conciso para representar os dados serializados.
  • Sealed Class: hierarquia fechada útil na serialização polimórfica.
  • Kotlin Multiplatform: permite compartilhar modelos e serializers entre plataformas.
  • Ktor: framework com integração oficial para conteúdo JSON via kotlinx.serialization.
  • Serialização avançada: aprofunda polimorfismo, SerializersModule e serializers customizados.

Para começar, configure o plugin, anote um modelo com @Serializable e teste o ciclo completo encodeToString → decodeFromString. Depois, defina conscientemente como o projeto trata campos desconhecidos, valores padrão, null, evolução de schema e erros de entrada. Essa disciplina importa mais do que apenas escolher uma biblioteca.